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Praia ganha livraria especializada em títulos universitários

 

O nome do escritor e director do jornal Manduco, na década de 1920, Pedro Cardoso, vai dar nome à mais nova livraria da cidade da Praia, especializada na venda de títulos universitários. Com capacidade para acolher 70 pessoas sentadas, a livraria promete tertúlias e efervescência cultural na capital do país. Uma oferta há muito reivindicada por uma elite que busca espaço para as suas inquietações existenciais. Com música ambiente e refrigeração, a Pedro Cardoso Livraria deve tornar-se num reduto para o burburinho intelectual, para além de preencher um espaço editorial que não abunda no país.

 

 

Localizada na Fazenda - ponto equidistante da cidade - nas palavras do dono, a Pedro Cardoso Livraria tem além de prateleiras sortidas - títulos que transitam de "Bom dia, Camaradas" do escritor angolano Odjaki a "Turismo na Lusofonia" e "O Mundo é Plano" de Thomas Friedman - uma mesa com quatro cadeiras, para convidados, conversas e conferencistas.

 

Vinculada ao Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais e, também, à Fundação de Direito e Justiça, a livraria abre as suas portas este sábado, 26, ao grande público com letreiros e fachada em pérgola. Mário Silva explica que a Pedro Cardoso Livraria foi concebida para preencher uma lacuna do mercado cabo-verdiano na seara dos livros especializados, voltados sobretudo, para a comunidade universitária.

 

"Constatamos que havia uma grande carência de livros universitários na Praia e fizemos essa aposta", explica. "Algumas obras já foram, inclusive, vendidas antes da inauguração. Além disso, a Fundação de Direito e Justiça tem um projecto universitário, e não faz sentido ter um projecto universitário sem uma livraria que dê dimensão forte à cultura", explica Mário Silva. A livraria Pedro Cardoso alberga obras sobre História, Relações Internacionais, Economia, Direito, Engenharia, Turismo, Gestão, Psicologia, Religião e dicionários especializados.

 

Tem uma agenda cultural própria e está nos planos deste espaço que é também de leitura e gastronomia, lançamentos de obras todos os meses. As publicações ligadas à área do Direito e das Ciências Sociais, obras consideradas da "casa", também vão estar disponíveis na livraria.

 

Agenda cultural

 

Na próxima segunda-feira, 28 de Julho, o político Carlos Veiga vai sentarse no sofá do local para uma conversa sobre Justiça Tributária. Mas, segundo Mário Silva, "a livraria é também um lugar para a família vir e adquirir livros para todas as idades". Com potencial para se tornar um novo recanto para o burburinho intelectual da cidade, a livraria terá igualmente um horário de funcionamento ampliado: de segunda-feira a sábado, abre as portas das 9h00 às 20h00, e aos domingos das 16h00 às 21h00.

 

A livraria Pedro Cardoso é fruto, segundo Mário Silva, de um trabalho de oito meses de pesquisa de mercado, negociação e encomenda. Os títulos foram sugeridos colectivamente por professores e pessoas ligadas à área académica. Uma aposta que deve ser ganha, até porque a abertura já se repercutiu nas redes sociais em termos de expectativa. "Estou optimista", diz Silva.

 

Na primeira semana de Agosto, e com data ainda a ser definida, o sofá da casa espera o professor Brito Semedo, para uma discussão sobre a vida e obra do jornalista que dá nome à livraria, Pedro Cardoso. Comunista e professor primário, Pedro Cardoso foi um homem público polémico, que ajudou a alimentar discussões de fundo no país, acerca das mais variadas vertentes que oscilaram desde a estiagem ao analfabetismo, da instrução pública a arborização.

 

Venda on-line

 

Quem estiver nas outras ilhas ou fora de Cabo Verde, e quiser adquirir algum título da literatura no país, vai ter, como opção de compra, a venda online e por encomenda. A livraria tem uma página electrónica - "lpc.cv" - onde o público encontra a listagem completa das obras comercializadas.

 

A Pedro Cardoso vai também editar obras de escritores nacionais. Nos próximos seis meses, três títulos inéditos, incluindo um infanto-juvenil, já devem estar disponíveis para os amantes e adeptos da ideia de um livro, um café. A exibição de documentários também deve fazer parte da carta cultural da Pedro Cardoso Livraria. "Acho que o espaço vai ao encontro de uma necessidade do país", completa Mário Silva.

 

Para a jornalista e escritora cabo-verdiana Margarida Fontes, que acaba de lançar o livro de poesias "Os Lírios", a proposta da livraria como ponto de edição "é uma iniciativa interessante. No campo literário é algo que faltava. O facto de trazer um nome como o de Pedro Cardoso é um resgate. Pedro Cardoso é contemporáneo de Eugénio Tavares, e muito pouco conhecido. Mas tem legado e deram um contributo a cultura cabo-verdiana na mesma proporção, eu diria", completa Fontes.

 

Exemplar

 

Uma das aquisições mais recentes para a sessão literária da Pedro Cardoso Livraria é "A Rainha Ginga", romance histórico do angolano José Eduardo Agualusa.

 

Figura icónica da Angola, a Rainha Ginga ficou conhecida pela sua personalidade forte e pela sua visão política que rejeitava a escravidão, por entender que um projecto nacional se faz com pessoas. Ginga desmitifica, por exemplo, a ideia da passividade dos escravos na história contada pela óptica europeia. Mostrar como os africanos foram "parte activa e bem mais vigorosa no processo de construção de nações e na redefinição do mapa do mundo" é um dos motes da obra lançada em Junho.

 

Narrado pelo padre pernambucano Francisco José de Santa Cruz, homem do século XVII e secretário da rainha, "o romance A Rainha Ginga ganha por ousar reescrever o passado. O que nos permite pensar o futuro", diz o escritor moçambicano Mia Couto. Mais: "os africanos sempre tiveram um papel mais activo e interveniente na construção do mundo, na ideia do Homem e de Deus", e a proto nacionalista de Angola, é, talvez, uma das expressões máximas no contexto africano desta tese, tratada por Agualusa.

 

Publicado no Jornal on-line A semana em 26-07-2014